segunda-feira, 2 de março de 2009

DO AVESSO DO AVESSO DO AVESSO

arrancar os olhos da verdade
fazendo cega
a própria carne
num corpo abstrato
e sóbrio

é

a verdade em seu disfarce
golpeando força e medo
agitando as veias do passado
implodindo glóbulos brancos
em pensamentos vermelhos

é

tanger a própria alma
enxotando o próprio termo
inclinando-se ao alabastro
retorcendo-se por entre os nervos

é

arrancar a própria fala
fazendo do dentro um mito em sina
sinônimo de loucura e fêmea tara
na profunda rasura da própria aura

é

trégua de querer a sua falha
assumindo o instante em pesadelo
fazendo do nome um bruto caos
interrando o canto em seu desvelo
da mancha eterna da sina em cena

é

expremer-se por entre as letras
sendo sucata de vírgulas
na oficina das fusões
nos hiatos das canções partidas
nos ditongos das mágoas
na fonêmica da ânsia amarga

é

moer-se por entre as frases
fraseando o próprio eu
numa sinônima sintaxe da saudade
numa explosão semântica de eus.

domingo, 1 de março de 2009

ALGO SOBRE O AUTOR

ARENA


entre o nada e o nado eu nado
nado fundo e nada raso
raso-raso e raso-fundo
ranço do arraso da fúria fala
falanges de bocas acesas
incendiando o canto
monto neste monstro-verbo
monstraço
duro rumo
ramo de aço
teia que me tapeia
laço
que me aperta desfaço
murro que esmurro
fracasso
monto neste monstro
verbaço
firo com meu punhal
aço
golpe que me golpeia
enlaço
firo a lança e a teia
monstro que me golpeia
renasço

NO VÓRTICE DO VÔO DERRADEIRO*

Sobre verdes e pardos campos planavas
Em vôos ávidos de juventude, ternura e luz
No exercitar das asas e no dourado das vagas
Até que um dia roubaram o que em ti reluz.

Foi numa manhã em que feliz em gorjeio
Saíste cortando o azul, tingindo o horizonte.
De repente um silvo escravo arrancou-te de cheio
Ao te servir falsa asa rumo ao distante.

Foste atráido à cilada feito Ícaro iludido
Pousaste à beira de um alçapão e caíste
Terminando tendo o que antes nunca havia tido:

Sensação de andante e não mais asa e silvo
Tudo passou a ser segunda-feira e alpiste
E uma mágoa em teu peito tornou-se jazigo.

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Inspirado em chocantes cenas que presenciei em Teresina, ao lado do Museu do Piauí, um mercado de pássaros em que até tucano se encontra. Nunca vi tanta violência aos pássaros, tanta crueldade e tanta segurança nos praticantes desse ato vil. Não aos pássaros engaiolados!

César William

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

DESPALAVRIANDO

é molestando
o s s o s
dos vocábulos
que te tornas
magarefe da língua
alarido em feiras
clandestinas
balança ensaiando
a sina
navalha crescendo
a boca
entortando o riso
sobre
passarinhs

&

se dilaceras
as vísceras
das virgulas
apadrinhas
o talho no talho

sangue desfilando
por entre calcanhares
dentes postiços
mordendo gengivas
de mágoas
hálitos lendo
o espelho
das facas.

SUBURBANAMENTE

taipa à tapa
molejo argiloso
barro vencendo o domingo
varas de condão
sustentando o cinza
cães esqueléticos latindo manhãs
o fiado aceso na esquina

litro
lixo
lata

d'água na cabeça

lida
lido
líder

botijão entortando espinha de anjo

vizinho
cachaça
ônibus
fila
conta
jornal

na latrina
intriga
briga

a queixa
o queixa
cela
súplica
voto
desgosto
ira
troco
soco
esgoto

aberto
na fala
na sala

gravidez
vida
riso
risco.


NA TAL INFÂNCIA

O ADOBE
DA MEMÓRIA
LEVA-ME
A QUARTOS ESCUROS
DA INFÂNCIA

UM VELOCÍPEDE VERMELHO
CONDUZ-ME
NA GARUPA
DE UM NATAL
SEM FREIOS.